Acredito que todos aqueles que lêem este artigo concordam que nosso dia-a-dia torna-se cada vez mais atarefado. Estamos vivendo um déficit de tempo. Tempo é o bem mais caro e exíguo de nossos dias. Então resolvi consertar isso e observar durante uma semana como estou empregando meu tempo. Criei a minha semana de Truman, eu seria o ator, a audiência e a crítica dos meus atos.
A constatação foi aterradora. Gasto horas lendo e-mails que dizem muito pouco e pior, respondo alguns que geram treplicas ainda mais inúteis. Pessoas que mal conheço enviam-me mensagens como se fossem velhos amigos. Velhos amigos enviam emails para dizer coisas que eu gostaria de ouvir de viva voz.
Vou a reuniões, muita delas, com baixa produtividade de todos, porque a grande maioria das pessoas está imersa em um estado de meia-atenção, dividindo sua concentração entre a discussão, o lap-top, o Blackberry e interrupções de terceiros que nem estão na reunião. Vou a almoços para resolver assuntos de negócios e as conversas são arrastadas, porque, já que ninguém os desliga, os celulares insistem em tocar lentamente. Além das interrupções barulhentas há aquelas mais sutis como a do Blackberry, porque quando a palavra não está com a pessoa ela aproveita para checar os e-mails. E a respondê-los em meio a uma reunião.
Depois do jantar, lá pelas 23h30, dou uma olhada no Blackberry e lá estão outros 50 e-mails enviados depois das 18h. “Que saco, vou limpar esta caixa postal”. Mas a maquininha é on-line e outros, como eu, começam a enviar suas tréplicas de e-mail e quando percebem que você está on line aproveitam para abrir um chat quase perto da meia noite. Alem disso, sempre tem um maluco que acorda as 5h30, envia uma mensagem para você às 5h45 e às 9h00, no elevador da empresa pergunta irritado: “Você leu meu e-mail?”. Bem, esta é, na minha opinião, a frase mais idiota do século 21. “Você leu meu e-mail?” Santo Deus, porque me pergunta isso? Porque não conversa comigo? Porque não resolvemos agora de um jeito fácil, porque tenho que ler seu e-mail?
O mesmo fenômeno de excesso de informação inútil ocorre na nossa atividade profissional. Em mídia nem se fala. Tudo é on line, em tempo real, com milhões de estudos, tabelas, gráficos, atualizações. Ok, isso é bom, é moderno, mas cadê o bife? Quando foi que você parou duas horas para refletir sozinho sobre uma questão?
Cadê o bife, cadê o raciocínio, o diferencial que é só seu?
Você tirou sua estratégia da cabeça ou Googlou a solução em 10 segundos? Você inventou algo novo ou deu um copy paste? Você teve uma conversa profunda para resolver um problema ou passou um email às 2h da manhã pensando que agora o problema é do destinatário?
Se você tem dois pauzinhos para construir uma casa, você precisa de recursos e de criatividade. Mas, se você tem acesso a muitos recursos, você precisa ser seletivo, cerebral e ter muito mais criatividade. Claro que fatos e dados são importantes em uma tomada de decisão, mas saber selecioná-las é diferencial competitivo e o mais importante é reflexão para a tomada de decisão.
Os profissionais de mídia de hoje tem muito mais informações a sua disposição, e isso é ótimo, mas o que estamos fazendo com tanta informação? Estamos usando os fatos e dados como uma lanterna para dar luz à situação ou estamos usando as informações como muleta para ocultar a nossa ausência de raciocínio? Estamos dedicando tempo para elaborar uma estratégia bem organizada ou estamos gastando tempo refazendo 10 vezes uma estratégia feita num piscar de olhos. Estamos focando atenção em no que importa ou estamos desfocando atenção em muitos assuntos?
Eu acho que somos a sociedade da meia-atenção, da solução rápida e quase sempre meia-boca. Invoco nesse artigo a originalidade das pessoas, a frase dita ao vivo com emoção e expressão, o pensamento estruturado e maduro, a qualidade da informação e não quantidade dela.
Nessa semana de Truman entendi a importância de que estou empregando mal meu tempo, com assuntos de baixa qualidade. O silêncio reflexivo vale mais que 50 re-plays de email. A idéia única vale mais que 100 mil páginas copiadas da Internet.
Menos conteúdo com mais qualidade e mais decisão, é isso que nos falta.